Histórias de "nossa" autoria

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Histórias de "nossa" autoria

Mensagem por Lourenço em Dom 26 Out 2008 - 12:32

Sózinho
Trata-se de um texto que fiz para a faculdade em que um dos temas era um velho a descer uma escada, fazendo um texto lento e então nasceu isto...é longo, mas gostava que lessem.

Está na hora de sair de casa, o Sol já vai alto, tenho ainda de descer aquela longa escadaria que dá para a rua. O meu maior problema é a idade, os meus setenta e cinco anos já pesam e de que maneira, ainda para mais quando tenho de sair de casa e descer aquela escadaria com cerca de trinta degraus.
Infelizmente não tenho ninguém que me possa ajudar, sou velho, dos velhos pouca gente quer saber. Ao longo desta grande viagem, que é para mim descer esta escada, vou pensando na vida, nas pessoas que podiam estar a meu lado, mas que não estão.
Caminhei, então, para a porta de minha casa que, dá para a rua, sempre com a lentidão que me caracteriza. Começo então a minha longa viagem.
Sem cansaço aparente, os dois primeiros degraus são sempre os menos difíceis para mim, mas, ao terceiro degrau tudo muda, a idade não perdoa, o cansaço começa a fazer-se sentir, é aqui que faço a minha primeira pausa. Olho em meu redor, tudo está calmo. As árvores não se movem, do vento nem sinal, o Sol brilha bem lá no alto, a água desliza no ribeiro que vislumbro aqui de cima, os pássaros só agora começam a trautear as suas melodias, é a paz do campo. Esta paz surte dois efeitos em mim, acalma-me mas, ao mesmo tempo, começo a sentir uma melancolia que se apodera de mim.
Dou mais um passo, agarro-me ao corrimão, lentamente desci outro degrau, ganho coragem, desço outro. Estou novamente cansado, mal sinto as pernas, o ar falta-me, tenho de parar. Lembro-me de uma pessoa que podia estar aqui para me ajudar, o meu filho André, mas não está. Há trinta anos que não nos falamos, notícias sobre ele são praticamente nulas, ainda assim, sei onde vive, fica muito longe daqui. Zangámo-nos quase sem razões para isso, é mais uma daquelas típicas zangas capazes de separar pessoas durante anos, mas que não se percebe bem o porquê de existirem.
Apesar de todos estes anos passados, lembro-me dele, diziam que era parecido comigo, infelicidade dele, tenho saudades, mas o orgulho por vezes fala mais alto, agora que penso, há tanto tempo que não tenho notícias dele. Há já algum tempo que estou aqui parado, o cansaço parece ter abrandado, tenho de prosseguir. Avanço mais dois degraus, demoro tanto tempo, como o tempo em que estive a recordar o meu filho.
Olho para o degrau onde me encontro, vejo qualquer coisa timidamente a brilhar, a curiosidade é mais forte, apesar das dores, tenho de saber do que se trata, agacho-me lentamente, com muito custo agarro o misterioso objecto. Não percebo á primeira vista do que se trata, porque também a visão vai desaparecendo ao longo dos anos, com a ajuda do tacto percebo que se trata de uma pequena medalha, retiro os óculos que estão no interior do bolso do casaco que tenho vestido, coloco-os na cara. Já consigo ver melhor, vejo uma fotografia, as lágrimas deslizam-me rosto abaixo, é a fotografia da minha mãe, para além do meu filho é a pessoa que mais amo, já partiu há uns bons anos, faz-me tanta falta a sua presença. Há muito tempo que não sabia desta medalha, aperto-a com a pouca força que me resta, coloco-a junto do meu peito, choro, choro com muita tristeza por não a ter aqui comigo, mas choro ao mesmo tempo de alegria por ter encontrado a medalhinha que tem o rosto da minha mãe estampado. Demoro algum tempo a recompor-me. Finalmente consigo, caminho então para mais uma etapa, vou descendo outros dois degraus, ainda mais devagar, ainda com mais custo. Paro novamente. Tento lembrar-me de como foi que perdi a medalha que tão boas recordações trás. Não me consigo lembrar com pormenor de como aconteceu, lembro-me vagamente que pode ter vindo junto a algum papel que estivesse no meu bolso, não é um bom hábito deitar papéis para o chão, mas por vezes faço-o, dessa vez correu-me mal, a preguiça de colocar o papel no lixo deixou-me durante muitos anos sem a única imagem física que tenho da minha mãe. Já não importa o que aconteceu ao certo, o que me interessa é que inesperadamente a recuperei e que contente que estou por isto me ter acontecido. Recupero algum do ânimo que há algum tempo havia perdido, penso que desta vez vou conseguir descer alguns degraus sem qualquer tipo de pausa mais longa. Consigo descer três longos degraus, demoro alguns séculos a desce-los, mas faço-o. O maior problema é agora, parece que estou a morrer, mais uma vez o ar parece que não quer entrar dentro de mim, respirar torna-se assim, difícil. As pernas tremem, com elas treme também o restante corpo. Olho em frente, faço uma espécie de balanço do que já desci e do que me falta descer. Volto a desanimar. Falta, ainda, uma longa jornada, parece-me difícil aguentar, mas é assim todos os dias em que tenho de sair de casa, cansaço, dor, tristeza, ânimo, desânimo. Tudo isto por culpa de uma simples escada de trinta degraus. Sinceramente não sei explicar se gosto ou não delas, sinceramente não sei, bem visto, as escadas são as que menos culpa têm, o culpado sou mesmo eu, estou velho e acabado. O tempo não para por causa da minha lentidão, por isso tenho de prosseguir, parece que quantos mais degraus desço, mais longe do final estou. Reinicio a minha jornada. Desço, a todo o custo mais um degrau, um pé de cada vez, agarrado ao corrimão a minha preciosa ajuda. Dificilmente retomo fôlego, mas pé ante pé passo para o degrau seguinte, mais uma vez faço uma pausa. Os meus pés, as minhas pernas, os meus braços, as minhas mãos, doem tanto que tenho a sensação que me vou desmembrar. Começo não só a ficar cansado física como também psicologicamente, estou farto de tudo isto, tenho vontade de desaparecer, já não estou aqui a fazer nada, ainda para mais estando praticamente sozinho no mundo, sem ninguém que me possa ajudar nas minhas tarefas, sem ninguém para conversar, sem ninguém para rir, sem ninguém para chorar, sem ninguém. Respiro fundo, sustenho a lágrima que teima em deslizar rosto abaixo, é mais forte do que eu. Solidão? Não a desejo a ninguém. Agora, ao invés de uma teimosa lágrima deslizam pelo meu rosto um oceano delas. Neste estado vou descendo outro degrau com ainda mais custo, já não são só as dores do corpo, mas uma das dores que mais me dói, a solidão, aquela das muitas dores que nos estão dentro do coração.
Espreito o degrau seguinte, seco as lágrimas que teimam em permanecer cravadas no meu rosto entre as rugas características das pessoas da minha idade. Mais uma vez, agarrado ao meu fiel amigo, ao menos este nunca me deixa, coloco o meu pé, do lado direito, no degrau que á pouco observei, coloco-o a medo e, por isso, muito lentamente. Tremo, ainda não me consegui recompor totalmente, arrasto o pé que me faltava avançar, o esquerdo. Isto começa a tornar-se ainda mais difícil, centro o meu olhar no céu, parece que vai desabar-me em cima, esta parece ser a mais longa e difícil de todas as longas e difíceis viagens que já fiz ao longo desta escada.
Reparo agora que tudo o que me rodeia parece ter-se transformado de forma impressionante. Quando saí de casa, o dia estava bonito, calmo. Agora não, tudo mudou, os pássaros já não entoam as suas melodias, as árvores começam a deambular de um lado para o outro, de uma lado para o outro, a água já não desliza ribeiro abaixo, até mesmo o Sol que brilhava lá bem no alto, se escondeu atrás das nuvens que, timidamente vão aparecendo. Questiono-me então: será que o tempo e tudo o que nos rodeia se transformam consoante o nosso estado de espírito? Ou será que é consoante o nosso estado de espírito que vamos tendo outra forma de ver, outra forma de sentir tudo o que se passa há nossa volta?
Continuo numa incógnita, se eu soubesse responder, não tinha feito a pergunta.
Volto a centrar-me na minha viagem, mas há algo que me interrompe. Sinto um som a penetrar-me timidamente os ouvidos, levo algum tempo a perceber o que se trata, felizmente percebi a tempo, é o meu telemóvel, está no meu bolso, reproduz este som que me ecoa na cabeça. É estranho, para que preciso eu de um telemóvel se estou quase sozinho no mundo? São as incoerências da vida.
Outra pergunta, mais importante, instale-se na minha cabeça: quem me estará a ligar? A curiosidade aguça-se. Como sempre a dificuldade em fazer o que quer que seja permanece, desta vez a dificuldade que me assola é não saber onde está o raio do aparelho que não para de tocar, começa a deixar-me nervoso. Quanto mais depressa tento procura-lo, mais devagar o consigo fazer. Encontrei-o, está ao pé dos óculos em que há pouco mexi para ver do que se tratava a medalha que havia encontrado uns degraus mais acima. A dificuldade não me dá tréguas, está complicado tirar o telemóvel, tudo isto enquanto ele vai tocando insistentemente. Finalmente, com alguma ajuda divina, penso, consigo tirar o telemóvel que teimava em chamar-me. Atrapalhado, já com o aparelho na mão, fico sem saber o que fazer, os olhos parecem não ver, as mãos parecem não ter reacção, já não sei o que fazer, esqueci-me de como se faz para atender esta geringonça, olho para o céu, talvez há espera de que alguma ajuda divina me pudesse ser concedida, felizmente é-me concedida, ou então foi a minha memoria que não me deixou ficar mal neste momento de extensa aflição. Pressiono, por isso, no botão em que me era pedido para pressionar, levo o aparelho ao ouvido, do outro lado oiço um cumprimento, retribuo. A voz que está do outro lado, desconheço, mas pelos visto não me desconhece a mim, é uma mulher, parece-me nervosa, tensa, a dificuldade em a ouvir é acrescida. Pergunta o meu nome, eu respondo, agora ela tem a certeza de quem eu sou, não se enganou, continua tensa, nervosa, acho que nada de bom tem para me dizer. Por momentos deixo de ouvir, a rede de telemóvel não é o forte desta zona. Volto a ouvi-la, avisa-me para aquilo que eu já sabia, de que nada de bom me tinha para dizer. Fala-me do meu filho, a emoção começa a tomar conta de mim, o meu coração parece que trepou até aos meu ouvidos de tão bem que eu o sinto e o consigo ouvir. A mulher que está do outro lado da linha parece entender que fiz uma pausa para este meu pensamento, parou de falar entretanto. Recomeça a conversa, diz-me que vai ser directa não valendo a pena os rodeios. O seu filho, o André, faleceu esta madrugada num acidente de viação, teve morte imediata, o funeral vai realizar-se amanha á tarde…diz-me ela. Não ouço mais nada, o mundo parou para mim, quase não sinto o corpo, a cabeça pesa mais que o restante corpo, este começa a tombar, estou sem força alguma para o suster. Começo a ver tudo negro, tenho a sensação que tudo à minha volta ficou de luto depois desta notícia.
As minhas pálpebras devem estar a pesar uns cem quilogramas, cada uma. Ainda assim, consigo levanta-las, o luto dá tréguas. Olho em redor, encontro-me no chão, no final de toda a escadaria. Pareço-me com uma ilha, estou no centro e, há minha volta, não existe mais nada, só sangue. Relembro-me do porquê de ali estar, naquele estado. Recebi a notícia da morte do meu filho, fiquei sem forças e rebolei escada abaixo até aqui. Choro, choro como se não existisse amanhã, tenho razão, para mim o amanhã não vai existir, estou no chão, do chão não vou sair, nem quero. A razão que eu tinha para viver, era a esperança de um dia me vir a reconciliar com o meu filho, agora ele morreu, com ele levou a esperança que se diz sempre que é a ultima a morrer. No fim da minha vida percebo que este ditado popular não faz sentido, pelo menos para mim. Toda a esperança que eu tinha morreu antes de mim, por pouco tempo é certo, mas morreu. A minha morte neste momento torna-se para mim uma certeza, nos últimos minutos que me restam, penso na alegria que vou ter quando reencontrar o meu filho lá em cima no céu, o céu que há pouco eu tinha receio que me desabasse em cima, mais uma incoerência da vida, primeiro tive medo e agora sou eu próprio que quero ir até ele. Quando vir o meu filho vou abraça-lo, dizer-lhe tudo o que lhe queria ter dito ao longo de todos estes anos. Também a minha mãe eu vou reencontrar, a ela vou dizer a falta que me fez desde que partiu até agora.
Uma sensação estranha toma conta de mim, mais uma vez, tudo fica negro, talvez seja o luto pelo que me vai acontecer, agora sei responder à pergunta que á pouco fiz a mim próprio, somos nós que consoante o nosso estado de espírito vamos tendo uma nova forma de ver tudo aquilo que nos rodeia. Provo, agora, o que acabei de pensar, tudo começa a ficar branco, é a paz que reina em mim, esboço o meu último sorriso misturado com lágrimas de sangue, deixo-me adormecer para a eternidade…

Tiago Lourenço
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13/02/2008

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Re: Histórias de "nossa" autoria

Mensagem por MoonSerenidade em Dom 26 Out 2008 - 12:44



k lindo...

tenho a sensaçao k ja tinha lido isto mas mesmo assim...

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Re: Histórias de "nossa" autoria

Mensagem por Lourenço em Dom 26 Out 2008 - 12:58

gostas-te? ainda bem:D
tlvz tenhas lido, eu cheguei a por no meu blog...

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Re: Histórias de "nossa" autoria

Mensagem por MoonSerenidade em Dom 26 Out 2008 - 13:01

entao foi ai k eu li

bem me parecia k nao era a primeira vez k tava a ler isto

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Re: Histórias de "nossa" autoria

Mensagem por AnA_Sant0s em Qua 29 Out 2008 - 12:11

AMEI!!

tens mesmo jeito, lourenço!!
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Re: Histórias de "nossa" autoria

Mensagem por Lourenço em Qua 29 Out 2008 - 12:24

OBRIGADO, fico feliz por teres gostado Very Happy

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